-- De onde vens e para onde vais ?
-- Venho de Deus na escuridão e para Deus vou na Luz.

sábado, 14 de abril de 2018

Fases da Morte - Parte 3 - Encarnação


REENCARNAÇÃO


Quando chega o momento em que a Alma ou Ego Espiritual, na sua marcha contínua para mais alto e mais profundo, deixa para trás o corpo emocional da mesma forma como deixou o corpo físico por ocasião da morte, processa-se então o que se chama de morte astral ou segunda morte.

A retirada do Ego Espiritual vai progressivamente paralisando as funções do corpo astral, a começar pelas mais densas, que assim se desagregam à medida que a consciência se retira, por um esforço semiconsciente do mesmo Ego. 
É desta maneira que o homem se liberta gradualmente desse veículo, até deixá-lo totalmente e ingressar no Mundo Mental.

Durante a sua estadia no Plano Emocional o Espírito purificou e assimilou tudo quanto havia de puro e assimilável nas emoções e sentimentos do corpo astral, de maneira que o que restará deste será um simples resíduo, um cascão de que a Tríade Superior (Espírito – Intuição – Mental Abstracto) se liberta facilmente, passando a vibrar num nível imediatamente superior onde também purificará e assimilará tudo quanto de puro e assimilável o homem pensou enquanto ser carnal.

Ao passar do Astral ao Mental pelo fenómeno da segunda morte, o homem não leva consigo as características emocionais, pois que a matéria astral não pode existir no Plano Mental e a matéria deste não pode responder às emoções grosseiras das paixões e desejos inferiores.

Tudo quanto no homem se exprimiu como inferior ou de baixo padrão vibratório, fica em estado latente no átomo-semente mental que entretanto já absorveu o átomo-semente astral, e assim fica durante toda a sua vida celeste.

É assim que, quando termina a vida astral, os elementos vitais retiram-se desse corpo abandonando-o à desagregação enquanto o seu átomo-semente se aloja no Corpo Causal ou Mental Superior.

Nos casos da maioria dos homens comuns, uma parte da sua matéria mental acha-se de tal modo misturada com a matéria astral (o que se chama kama-manas ou psicomental) que se torna impossível separá-las de imediato.

Daí decorre que uma porção da matéria mental fica no corpo emocional após a partida da  Alma ou Ego Espiritual, facto muito semelhante ao que ocorre na primeira morte.

No caso em que o homem, durante a sua vida, subjugou completamente os seus desejos inferiores e conseguiu libertar inteiramente o mental de todos eles, acontece que não terá nenhuma dificuldade em abandonar o corpo astral, levando consigo não só quanto trouxe para essa encarnação particular como o conjunto de todas as experiências, faculdades, etc., adquiridas.



Neste ponto, devo informar antes do mais que quanto maior for a duração de uma alma no Plano Astral mais depressa ela acabará por esquecer a sua última vida terrena, de que não se lembrará absolutamente nada quando se transfere ao Plano Mental, e cuja memória, ou melhor, as impressões psicomentais dessa mesma vida ficam registadas no seu átomo-semente causal, sendo quem irão determinar as condições da sua reencarnação futura.

Só os Grandes Adeptos e Iniciados conservam a memória das vidas passadas, mesmo quando encarnam, por manterem uma consciência ininterrupta dos vários níveis do Ser.

Terminada a acção das causas que levaram o Ego Espiritual ao Plano Mental, completamente assimilados os frutos das experiências colhidas nos Planos inferiores, passado algum tempo começa a surgir no Ser o desejo natural de se objectivar nos Mundos das Formas.

A este desejo, que tanto para o indivíduo como para o Cosmos é a causa primária da reencarnação e da manifestação, os hindus dão o nome de trishna.

Esse desejo nasce, na maioria dos homens pelos laços kármicos que os atraiem para o Mundo das Formas, após a alma haver satisfeito as suas necessidades nos Planos Astral e Mental, indo invadi-la o pensamento intenso de que aí já cumpriu o seu propósito e começa a conjecturar a possibilidade de entrar numa nova fase de existência.

É quando o seu corpo mental começa a dissolver-se no espaço ambiental e o Ser inicia um estado de sonolência que, ao mesmo tempo, leva-o a recolher-se ao Mundo Mental Superior ou Causal, indo desprender-se de vez do veículo mental inferior, o que equivale a uma terceira morte
Então o Ego vai adormecendo cada vez mais sobre si mesmo.

Ante a proximidade desse novo estado de sonolência a alma não experimenta qualquer sensação de dor ou incómodo, pelo contrário, invade-a uma espécie de satisfação e felicidade como se pressentisse algo que a irá renovar e realizar, pressentindo a proximidade de novas experiências que terá possibilidade de vivenciar numa nova existência.

De forma que ao terminar este ciclo neste plano Mental, o Ego acha-se livre de toda a peia passada, mesmo que as acções praticadas na vida anterior não se achem aniquiladas, pois que o registo dessas impressões (samskaras) contém-se no seu átomo-semente mental.

Se elas não existissem a Lei não determinaria nova encarnação, pelo que se encontram em estado latente formando a raiz do seu destino.


As sementes das tendências começam a germinar logo que o Ego se prepara para a próxima encarnação despendendo de si, dos seus átomos-sementes, as matérias mental, astral e física para a criação de uma nova personalidade que o revestirá.
É assim que a nova personalidade carrega consigo o fardo do passado.

As sementes provenientes da colheita do passado são chamadas de skandhas, “tendências”.

Logo que o Ego se apresenta no limiar dos Mundos Mental e Astral para uma nova encarnação, as skandhas fazem-se presentes para constituir o carácter dos novos veículos, ou seja, as qualidades materiais e as tendências psicomentais dessa nova personalidade.

O Ego envolve-se primeiro de matéria do Mundo Mental, em seguida de matéria do Mundo Emocional, e terá assim os novos veículos dessa natureza onde reaparecerão os interesses, emoções e apetites das suas vidas passadas. 
Essa matéria psicomental é atraída para o Ego automaticamente, e tal natureza irá reproduzir a que o homem possuía na sua última vida terrena.
É assim que ele irá reiniciar a sua vida material no ponto justo em que a deixou pela última vez.

De acordo com as suas necessidades e simpatias kármicas as quais ligam o passado ao futuro, ou sejam, as suas mesmas samskaras, o Ego naturalmente penetra na corrente que o conduz ao renascimento na família e ambiente adequados ao seu grau de evolução, mas que também lhe irão possibilitar as experiências necessárias à expiação dos dividendos passados. 
Isto explica porque numa alma sem karma o interesse por novas experiências humanas inexiste, e assim o Ego não é acometido de qualquer sono pré-reencarnatório, antes procura a absorção cada vez maior na Divindade de quem é Partícula ou Centelha um dia desprendida para se manifestar.

Em consequência desse encadeamento ao Mundo das Formas, o Ego vai submergindo-se num sono profundo – que se torna completo no momento em que se liga inteiramente ao novo corpo físico, o que sucede quando é cortado o “cordão umbilical” – indo assim “morrer” para o Mundo Espiritual no seu “descenso” a caminho do Mundo Material, onde finalmente reencarna.

O Ego Espiritual não fica enclausurado dentro da forma física, antes se manifesta pela alma nessa mesma forma, e tal “clausura” equivale a estar com a sua consciência inteiramente focada no Mundo das Formas, completamente abstraído do Mundo Espiritual que o envolve.

O sono do Ego regista-se nos recém-nascidos, que continuam sonolentos durante a infância – por isto os bebés dormem muito nos primeiros tempos, de noite e de dia, sendo menos o tempo de vigília que o de sono, por a sua consciência ainda estar muito ligada aos mundos espirituais onde passam a maior parte desse tempo – e aos poucos vão despertando para os factores externos, à medida que se desenvolve a inteligência da criança.


Um último tópico: a irrequietude da maioria das crianças é uma forma de despenderem ou largarem as energias do passado acompanhando as suas tendências psicomentais anteriores, assim ganhando novas energias e, por via dos novos interesses, novas tendências.

Quando a criança é inibida do descanso regular e das brincadeiras irrequietas pelos adultos, está-se forjando o seu futuro doentio, obeso ou esquálido, sempre centrípeto, o qual certamente ninguém lhe deve desejar.

Nisto, o papel dos pais e educadores é fundamental: à medida que os interesses da criança se manifestam, irem lhe dando educação primorosa, preferencialmente de natureza espiritual em conformidade às apetências e interesses da idade tenra, para que um dia sejam bons cidadãos, óptimos chefes de família e excelentes espiritualistas.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

A ( pouca) Fé dos homens



A Fé dos homens


O homem está cheio de preocupações e angústias, pois se fia mais na suas inicitiavas que na Providência, nos recursos humanos que na Presença.

"Eu sou , quero e mando"

Deixa-se absorver na ganância do dinheiro e poder e perde a sua Alma, pois " não se pode servir ao mesmo tempo a dois senhores ".

Esquece-se que se " Deus veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, como não fará por vós, homens de pouca Fé ".


Acredita apenas no que está ao alcance da mão.

Precisa de se "converter" e mudar de atitude para salvar a sua Alma e ser digno de ter sido Criado, acreditando que onde o homem não chega, chega a Providência.

" Procurai o Reino e tudo o resto virá por acréscimo".

Ó meu Deus, não quero a felicidade dos bens terrenos que são vãos e fugazes, próprios desta vida material.
Fazei-nos felizes mas de Vós, pois assim não Vos perderemos, nem nos perderemos a nós próprios.
Santo Agostinho

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

São Teófanes o Recluso - A Guerra contra as Paixões

     


São Teófanes o Recluso - A Guerra contra as Paixões 


Teófanes o Recluso (1815–1894) , também conhecido como como Teófanes o Eremita, foi um santo da Igreja Ortodoxa Russa, traduziu para russo as obras dos Padres do Deserto e da Filocalia.


Se nosso espírito se afastar de Deus, o poder de auto-determinação dado ao homem por Deus também será retirado de nós.
Dessa forma um homem não pode mais dominar nem as inclinações da alma ou as necessidades do seu corpo ou os contatos externos.
Ele será despedaçado pelos desejos de sua alma e de seu corpo e pela vaidade da vida exterior, embora todas essas coisas no nível superficial pareçam contribuir para seu próprio prazer e felicidade.

Compare esses dois estados da vida e você verá que no primeiro o homem vive totalmente dentro de si mesmo diante de Deus e que no segundo o homem está totalmente fora de si mesmo, esquecendo Deus.

Esse segundo estado da vida é tornado muito pior pela entrada das paixões que se enraízam no ego e penetram toda a alma e o corpo e dão uma direção maligna a tudo o que está lá, uma direção que não é construtiva, mas sim destrutiva, afastando o homem do caminho do Espírito e do temor a Deus, colocando-o contra a sua consciência.
Dessa maneira o homem se torna ainda mais superficial do que antes.

Dando a si mesmo numa entrega súplice para Deus e Sua graça, chame cada uma das coisas que incitam-lhe ao pecado e tente afastar o seu coração delas, dirigindo-o para o oposto delas.
Dessa forma elas serão arrancadas do coração e sua violência irá retroceder.
Nessa tarefa, dê livre redea ao seu poder de discernimento e conduza o coração vigiando-o.

Essa luta contra as forças do mal é absolutamente essencial se queremos dominar nossa vontade. 

É necessário continuar trabalhando sobre nós mesmos dessa maneira, assim, ao invés de auto-piedade, é nascida em nós uma atitude impiedosa e implacável para com nós mesmos, um desejo de sofrer, de torturar a nós mesmos, de cansar nossa alma e nosso corpo. 

Isso deve ser continuado até que, em vez de tentarmos agradar os homens, formemos um sentimento de repulsão contra todos os maus hábitos e conexões – até que formemos uma resistência hostil e feroz contra eles, ao mesmo tempo submetendo-nos a todos os males e depreciações que os homens inflijam a nós. 

É necessário prosseguir trabalhando até que nosso apetite exclusivamente por coisas materiais, sensórias e visíveis desapareça completamente e seja substituído por um sentimento de desgosto por tais coisas, que em seu lugar comecemos a ansiar e buscar apenas o que é espiritual, puro e divino.
Em vez da mundaneidade - a limitação da vida e da felicidade somente à essa Terra – o coração venha a ser preenchido com um sentido de ser apenas um peregrino na Terra, cujo anseio seja totalmente por seu lar celestial.

Após o despertar inicial através da graça, o primeiro passo cabe ao livre arbítrio do homem.
Exercendo esse livre arbítrio, ele viaja para dentro de si mesmo de três maneiras.



Primeiro, sua vontade inclina-se para o que é bom e escolhe isso.
Na segunda, ela remove os obstáculos: para desatar as amarras que o atam ao pecado, ela bane do seu coração a auto-piedade, o desejo de agradar os homens, a inclinação pelas coisas sensórias e mundanas e em seu lugar ela incita a impiedosidade para com ele mesmo, a ausência de desejo por coisas dos sentidos, a aceitação de todo tipo de desgraça. 

Ela o faz sentir que seu verdadeiro lar está no mundo vindouro, enquanto que aqui ele é apenas um errante e um exilado.
Em terceiro lugar, o livre arbítrio é inspirado a prontamente enveredar pelo caminho correto, não permitindo auto-indulgência e fazendo o homem manter-se constantemente em alerta.

Dessa forma tudo se acalma na alma.
Incitado pela graça, o homem é libertado de todas as algemas e com total prontidão diz para si mesmo: vou erguer-me e seguir adiante.
A partir desse momento outro movimento se inicia na alma – um movimento na direção de Deus.
Tendo dominado a si mesmo através da compreensão dos motivos de todas as suas inclinações e assim reconquistando a liberdade interior, ele deve agora sacrificar-se por completo para Deus.
Ainda assim, apenas metade do trabalho foi alcançado.

A guerra contra as paixões que é requerida de nós é essencialmente uma guerra da mente.
Nós obtemos êxito nela ao negar todo alimento para as paixões e assim matando-as de fome.
Mas há também a guerra da ação, que consiste em deliberadamente empreender e realizar o que é diametralmente oposto às nossas paixões.
Por exemplo, para conquistar a avareza deveríamos distribuir dinheiro livremente; para lutar contra o orgulho deveríamos escolher algumas ocupações degradantes, para superar um anseio por divertimento deveríamos ficar em casa e assim por diante.

É verdade que esse método usado sozinho não conduz diretamente à meta, pois quando suprimida a paixão pode forçar sua entrada ou retirar-se para dar lugar a alguma outra paixão.
Mas quando essa luta ativa une-se com a interior, as duas juntas rapidamente tonam-se aptas a superar qualquer ataque das paixões.

Se a batalha é conduzida apenas internamente ela expulsa a paixão da consciência do homem, mas a paixão ainda permanece viva, embora não esteja em evidência.
Mas a oposição ativa apunhala essa cobra bem na cabeça.
Isso não significa que a luta interna deveria ser abandonada.
Ela deveria permanecer constante, de outro modo a luta poderá ser infrutífera e nossa inclinação às paixões poderá até aumentar em vez de diminuir. 
Se abandonarmos a batalha interna, poderemos descobrir que enquanto lutamos com uma paixão, uma outra nos cliva: por exemplo, nós expulsamos a glutonia com o jejum e então a vanglória assume o seu lugar.
Se falhamos em dar a devida atenção à batalha interior, nenhum esforço, não importa o quão enérgico, dará frutos. 

A batalha interna aliada à oposição ativa às paixões ataca-as igualmente de dentro e de fora e assim destrói-nas tão rapidamente quanto um inimigo é destruído quando e cercado e atacado pela frente e pelas costas.

De modo a impedir seus pensamentos de vagarem, você deveria adquirir um sentimento de estar constantemente com Deus no coração.
Assim não haverá espaço para pensamentos estrangeiros. 
Para parar de condenar os outros você deveria tornar-se profundamente consciente da sua própria pecaminosidade e afligir-se a respeito dela, lamentando por sua alma como se ela estivesse morta.
Como foi dito: com alguém da sua familia morto em casa você não se preocupará com o funeral de outra pessoa.

É dito que a vaidade é um ladrão interno que está coligado com ladrões de fora.
Ela abre a porta e as janelas para eles, eles entram e causam grande devastação internamente.
Quem sabe? Talvez o período de trevas que você experimentou e que o abandonou assim que você orou é uma fraude do inimigo para engendrar pensamentos de vaidade – para fazê-lo dizer para si mesmo: 'Como sou bom na oração! No momento em que oro todos os demônios se afugentam!' Atente-se: se pensamentos de vaidade vêm a você após a oração, isso mostra que o inimigo está tentando aguçar o seu orgulho.

Torne uma regra nunca encorajar de bom grado qualquer pensamento, sentimento ou desejo proveniente das paixões e manda-los embora com aversão assim que você os notar.
Dessa forma você será sempre inocente perante Deus e sua consciência.
Você ainda terá a impureza da paixão em você mas também terá inocência.

O diabo não tem acesso à alma, a alma não abriga ela mesma nenhuma paixão.
Em tal estado ela é transparente e o diabo não pode vê-la.
Mas quando ela admite o movimento de uma paixão e consente esse movimento, ela escurece e o diabo a vê.
Ele aproxima-se dela audaciosamente e assume controle sobre ela.

Duas paixões malignas principalmente perturbam a alma – a luxúria e a irritabilidade.

Quando o diabo consegue aprisionar alguém através da luxúria, ele o deixa sozinho em seu turbilhão: o diabo não se incomoda mais, exceto talvez para o perturbar um pouco com a raiva.
Mas se um homem não adere à luxúria, o diabo apressa-se em incitar-lhe à raiva e reúne ao redor dele um número de coisas irritantes. 
Um homem que falha em discernir as artimanhas do diabo permite-se ficar irritado com qualquer coisa, permitindo que a raiva o domine, então ele 'dá lugar ao diabo'.

Mas um homem que abafa toda explosão de raiva resiste ao demônio e repele-o e não dá lugar a ele dentro de si mesmo.
A raiva que 'dá lugar ao diabo', faz com que o inimigo imediatamente entre na alma e começa a sugerir pensamentos, cada um mais irritante que o outro. 
O homem começa a inflamar-se com a raiva como se estivesse em chamas.
Esse é o fogo do inferno.
Um homem que rapidamente supera a ira dispersa essa ilusão e assim repele o diabo como se lhe desse um forte golpe no peito.
Existe alguém que, após extinguir sua raiva e analisar todo o assunto de boa fé, não percebe que havia algo errado na base de sua irritação?

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Rogo a Deus que me liberte de Deus !!


Imaginar Deus é o maior estorvo no caminho espiritual.
Mestre Eckhart

2 seres, um “ser individual”,  impermanente e sujeito à mudança; hoje, chamar-lhe-íamos o “ego”, o eu superficial.
Um segundo  ser o o nosso “verdadeiro ser”, que é a ideia de nós mesmos, tal como já existia na mente de Deus antes da Criação.
Esta é a nossa essência divina, a nossa “faísca”, que é, portanto, eterna e imutável.


 Uma consequência inevitável de sermos criados é a de ficarmos somente focados no nosso “ser individual”, impermanente e sempre em mudança; esta preocupação pode esconder totalmente o nosso “verdadeiro ser”.
Esquecemos a nossa verdadeira origem e o nosso verdadeiro destino.
Essencial, portanto, que desenvolvamos a clareza de visão, desapegando-nos da nossa preocupação obsessiva com o nosso ser material e o seu ambiente.

 É a este nível que fazemos Deus à nossa imagem:
Por isso, rogo a Deus que me possa libertar de Deus, pois o meu ser real está acima de Deus, se tomarmos Deus como sendo o princípio das coisas criadas.” 
Mestre Eckhart

Afirmação arrojada que o colocaram em sarilhos.
Eu interpreto-a do seguinte modo: “Portanto, rogo à Deidade que me liberte das minhas imagens de Deus, pois Ele e o meu verdadeiro ser são mais do que qualquer imagem.”
A ênfase está na recordação da nossa “faísca”, que é “o templo da Deidade”, consistindo, assim, na mesma substância da Deidade e, portanto, superior a qualquer coisa criada.
“De modo similar, tenho dito muitas vezes que há algo na alma que está estreitamente relacionado com Deus, que é uno com Ele e não apenas unido. […] É uma unidade e uma pura união.”

Qualquer imagem de Deus apouca Deus.
 
Não é apenas a imagem de Deus que nos cega para a Verdade, mas, também, a tendência para ver tudo a partir do nosso ponto de vista, fazendo equivaler os nossos padrões com os de Deus:
Ao expressar a impossibilidade de descrever Deus e as Suas qualidades, Eckhart fá-lo, como sempre, de forma audaz, para chocar os seus ouvintes, forçando-os a sair das suas ideias preconcebidas. 
 
A sua visão é uma visão unitiva da profunda experiência espiritual, onde tudo é Um: “Verdadeiramente, sois o Deus oculto no terreno da alma, onde o terreno de Deus e o terreno da alma são um só terreno.”

As nossas imagens de Deus são vistas por Mestre Eckhart como a consequência das nossas imagens de nós mesmos e dos que são importantes para nós, o que afecta de forma significativa o nosso relacionamento com Deus. 

Além disso, elas mantêm-nos focados no Deus “externo”, ao qual sentimos que podemos dar um nome e, desse modo, podemos controlar; mas Mestre Eckhart sublinha: “Deus não é nem isto nem aquilo”. 
Ele é muito crítico destas imagens e da mentalidade utilitária que exibem e sabe que estas constituem o maior estorvo no caminho espiritual. 

“Há os que estão apegados às suas próprias orações e exercícios externos ( ex. solidariedade social , rituais comunitarios) , que parecem importantes para as pessoas. 

Deus auxilie aqueles que têm a verdade divina em tão baixa estima! 
 
Essas pessoas apresentam uma imagem exterior que lhes dá o nome de santos; merecem grande estima aos olhos dos homens que não sabem ver mais do que isso, mas eu digo que elas estão erradas pois não têm qualquer entendimento da Verdade Divina.”
Nenhuma experiência da Presença pode alguma vez ser conquista nossa, mas
é um acto da Graça. 
 
Tudo o que precisamos de fazer é abrir a mente ao Divino: “Só Deus sabe o que tem de fazer… e vós tendes que passar por isso”.

Só estando verdadeiramente desapegados de todas as imagens e ideias preconcebidas é que podemos regressar à Deidade e saborear a pureza da Natureza Divina, tornando-nos plenamente um:
O olho com que vejo a Deus é o mesmo olho com que Deus me vê. O meu olho e o de Deus são um olho, um que vê, um que sabe e um que ama.”

Queremos Deus ou entretenimento ?

                    

   Queremos Deus ou entretenimento  ?
 
A consolação é o recurso mais rápido daqueles que estão aflitos, mas......este tipo de consolação é uma ilusão.
Simone Weil 

Talvez mostre que o que realmente queremos quando estamos desesperados não é um Deus, mas sim entretenimento.

A nossa própria cultura baseia-se menos na idolatria, embora absolutizemos muitas coisas disparatadas e criemos a celebridade como uma alternativa à santidade.

Baseia-se mais em entreter-nos continuamente com qualquer coisa que nos estimule, excite ou distraia.


Ficamos a pé até tarde devorando entretenimento.
 

Não conseguimos fazer uma curta viagem de comboio sem ver um filme ou tomar um lanchinho. 

E, é claro, alimentamos as crianças com uma dieta de distracção animada, distribuída por vários aparelhos electrónicos.

 

Isso é compreensível e também desculpável.
A sabedoria necessária para a sobrevivência consiste em que temos que perdoar a nós mesmos as nossas coisas estúpidas.
 


Simone Weil dizia que a consolação é o único recurso daqueles que estão aflitos. 
E perder o norte, sentir-se abandonado, ter perdido os nossos bons líderes e sentir que até Deus nos abandonou é estar profundamente aflito.
O único problema é que este tipo de consolação é uma ilusão e a ilusão devora as próprias fundações do nosso sentido do “eu”.


Ao tentar escapar à escuridão, ela abre-nos o abismo.
Conduz-nos à desordem da psique e ao caos na comunidade. 


Muitas vezes, de tempos a tempos, todos nós sentimos a fidelidade como aborrecida.

Se não formos encorajados e inspirados por algum tipo de fonte autêntica, estes momentos de fraqueza levam-nos a desejar a variedade só por si.

Ficamos impacientes.
Perdemos a esperança de que a fidelidade ao caminho que estamos a seguir venha a produzir a riqueza e a delícia que, noutras alturas, acreditamos irá conseguir.
Esta fraqueza na natureza humana é também uma fonte de força.


Mas é um defeito de concepção em que tudo o que fazemos que requer paciência, fidelidade e compromisso, desde dizer o mantra até ao casamento, desde levar um projecto à sua conclusão até esperar que Moisés desça da montanha e regresse.